- Não quero que morras comigo. Quero que morras longe.
Cada vez que tento fugir de mim assola-me este teu olhar, como duas bolas de nada, de vazio, dois olhos que nunca dizem o que vêem ou que sentem.
- Quero morrer contigo porque quero que toda a minha vida seja a tua por proximidade
- Mas eu quero que não morras ao meu lado.
- Eu sei. Eu quero morrer contigo porque quero morrer longe e que morras longe comigo, ao meu lado, ao mesmo tempo. Quero saber, ter a certeza que nem eu nem tu, nenhum de nós sofra com a partida, a ausência do outro.
Cada vez que tento exprimir o que arde cá dentro acabo sempre por sair frustrado com a reacção de quem me escuta. Não percebem. Nem que explique ou tente. Tento.
- E não quero sofrer e ver-te fugir ou sentir o meu corpo fugir sem sair do espaço, fugir com o tempo, sem poder agarrar-te e arrastar-te comigo.
Eu não conheço as coisas deste mundo. Conheço o ócio e a preguiça de um corpo cansado logo pela manhã. Não tenho os olhos de quem acorda e vê o dia recebê-lo de braços abertos como um regresso de uma viagem demorada, atrasada pelo mau tempo, pelo carro que se intrometeu na linha do comboio de alta velocidade. Os meus olhos vêem o sonho que ficou para trás, o sonho que nunca terá o seu termo, o sonho abandonado por uma merda qualquer.
- Quero morrer contigo
- Não quero que morras comigo. Quero que morras longe.
Fica comigo. Lembras-te? Ficamos sozinhos na sala da pequena galeria dos coimbras. Olhaste-me pelo reflexo do vidro que separa a obra de quem a olha. Olhaste-me, fixaste-te no meu nariz ou na boca, não percebi, como que a ganhar coragem de me abordar da forma mais directa possível, dizer-me «Deixa-te de merdas e dá-me um beijo!». Por vezes precisamos de desafiar o diabo para sentir que estamos vivos.
- Quero morrer contigo
- Não.
Os dias queimam lentamente a mortalha do cigarro. Dos cigarros todos, todos a seguir aos outros.
- queria poder dizer-te que sim, que te quero para sempre e sempre.
Não acredito. Já não acredito em tudo o que me dizem que sentem, em tudo o que salta das bocas que tocam na minha, nas minhas.
- Sabes? quando menos espero o tempo custa a passar, demora eternidades até que toque a próxima música. E sem saber porquê dou por mim a olhar fixamente o relógio como um gato a radiografar a presa.
- Pensas demais. Não achas que pensas demais?
- Acho.
E não gosto. Mas sinto que se não o fizesse correria o risco de ser confundido por mim próprio com um outro próprio qualquer. Sinto que deixava de ter interesse, que me tornaria ainda mais enfadonho, mais insuportável do que realmente sou. Sei que nunca conseguiria viver comigo, de manhã até à noite, da noite até de manhã. Se todo o dia fosse formatado por um ideal que conseguisse concluir após todas as possíveis cabeçadas na parede. Talvez a criança que viveu em mim tivesse algum propósito quando durante a noite, em sonambulismo, batia desmesuradamente com a cabeça na parede branca e rugosa acoplada à cama.
- E então?! Porque continuas? Porque tens de ser sempre tão hiper-crítico?
Basta. É melhor parar por aqui.












